Amazônia, Espécies em extinção e Internacionalização

julho 9, 2009 Autor: Fernando MS

Pesquisadores da Wake Forest University, nos EUA, concluíram através de um estudo que cerca de 4.550 espécies de plantas amazônicas podem desaparecer até 2050 devido ao uso do solo da região para agricultura e pecuária.

Os pesquisadores Miles Silman e Kenneth Feeley estimaram taxas de perda do habitat natural na região e, a partir disso, calcularam quantas espécies vegetais devem desaparecer. Num cenário mais otimista considerado por eles, 2.400 espécies estariam condenadas até 2050.

Fatalmente, quando o assunto é Amazônia, é inevitável mencionar a internacionalização da floresta. Provavelmente, a cada ano que passa, o assunto será mais massivamente discutido.

amazonia

Porém, acabei me lembrando de algo que havia lido há alguns anos atrás, e que vale à pena ser compartilhado:

Durante um debate ocorrido no mês de Novembro/2000, em uma Universidade nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT), foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:

“De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a   internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo e risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado

Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.

Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveriam  pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.

Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.”

Esta é uma ótima maneira de rebater quando alguém quiser dar uma de moderninho e defender a internacionalização da Amazônia.

(Pode começar a jogar pedra)

Arquivado em: Utilidade Pública

Comentários

Um Comentário to “Amazônia, Espécies em extinção e Internacionalização”
  1. Cezar disse:
    Muito maior a discussão sobre a internacionalização da Amazônia ou dos bens construídos e expostos em museus mundo afora e a penúria por que passam milhares de adultos e crianças mundo afora, temos que pensar que o sustento de toda a vida do planeta, não importando que ela seja pobre, rica, preta, amarela, vermelha, verde, azul ou branca depende do equilíbrio nas relações entre o homem e o meio em que ele habita. Enquanto continuarmos usando os recursos que o meio nos disponibiliza de maneira irresponsável, estaremos, diariamente, condenando a nós mesmos a não termos mais o que comer, beber ou respirar, independente de quem seja o dono da Amazônia. Aliás, tão importante quanto a Amazônia são as águas dos rios e oceanos, as responsáveis por manter vivo o ciclo de produção de oxigênio que alimenta o planeta. E não devemos nos esquecer que tudo no ambiente que habitamos é cíclico. A água que sujamos no alto da montanha chegará, deixando sua marca de sujeira por onde passar, ao oceano, que alimentará os peixes que iremos ingerir. O papel que fazemos mal uso e jogamos fora tem que ser produzido pelo corte de árvores que são plantadas em áreas desmatadas. O plástico que utilizamos em excesso e descartamos de qualquer maneira precisa que mais petróleo seja extraído e refinado para que possamos continuar a ter esta matéria prima disponível para nossas necessidades. O petróleo que é queimado pelo escapamento dos carros entra em nosso corpo na forma de monóxido de carbono, causando câncer e entupindo nossas artérias. A mata ciliar desmatada faz com que os rios, que nos fornecem água para beber e mais um sem número de atividades, sejam assoreados e não consigam nos fornecer a água necessária para nossas atividades. Sem falar que, dentro de nosso egoísmo, esquecemos que não só nós precisamos do ar, da água e do solo limpos para nossa sobrevivência: todo os outros seres vivos que coabitam o planeta conosco também precisam das mesmas coisas para sua sobrevivência.
    É isso aí: temos que pensar nossa vida e nosso agir no mundo com responsabilidade pois a sujeira que deixarmos no ambiente voltará, em algum momento, para dentro do nosso corpo.

    Responder

Deixe um Comentário Aqui

Solta o verbo logo abaixo!