As abelhas – parábola?

dezembro 5, 2010 Autor: Fernando MS

No meio de um Caderno de Variedades, na edição de hoje, de um jornal aqui de Santa Catarina – Diário Catarinense – encontrei perdido um texto fabuloso do também fabuloso Veríssimo.
Diz ele em forma de parábola:

“Numa cidade à beira-mar, num castelo de altas torres, vivia uma princesa chamada Luciclara, que gostava muito de mel. Lucicalra comia mel todos os dias. Potes e potes de mel. Desde criancinha. E Luciclara era linda. Tinha cabelos dourados, olhos azuis, faces rosadas, lábios petalosos e um corpo de anjo. E, acima de tudo, Luciclara era doce. Tudo nela era melífluo. Sua voz, seus gestos, seu modo de andar… Desde que não lhe faltasse mel.

Luciclara não podia passar um dia sem seu mel, e cada vez mais mel. Se, por acaso, os potes atrasassem, Luciclara ficava irritadiça e começava a reclamar de tudo. Seus olhos azuis faiscavam e qualquer coisa era motivo para irritá-la. Como no dia em que uma abelha, uma simples abelha, entrou pela janela do seu quarto, na torre mais alta do castelo, da qual ela avistava o mar e os morros ao redor, e zuniu em volta da sua cabeça.

- liique – gritou Luciclara.
- Um animal! Tirem isso daqui!
- É só uma abelha, princesa. Uma simples abelha.
- Não interessa! Tirem isso daqui! Matem! E cadê o meu mel?

Depois de comer o mel, Luciclara se acalmava. O castelo inteiro se acalmava. O rei, pai da princesa, dera ordens para que nada incomodasse sua linda e doce filha. E que nunca lhe faltasse o mel. Mesmo que, para ficar calma, Luciclara necessitasse de cada vez mais, e mais mel.

Dias depois, duas abelhas entraram pela janela do quarto na torre mais alta, provocando outra reação da princesa.

- Mas o que é isso? É uma invasão!
- São abelhas, princesa.
- Mas de onde vêm essas pestes?
- Dos jardins em volta do castelo, princesa. Dos morros.
- Mas por que elas estão aparecendo agora?
- Porque aumentou muito o consumo de mel no castelo, princesa. Foi preciso instalar mais colmeias. Há muito mais abelhas.
- E o que mel tem a ver com abelhas?
- São as abelhas que fazem o mel, princesa.
- O QUÊ? Eu sempre pensei que ele caísse do céu!

O rei ficou num dilema. Nos dias que se seguiram aumentou a invasão de abelhas no castelo. Não apenas no quarto da princesa, na torre mais alta. Em todos os aposentos reais. Na cozinha. Na comida. Na beira da piscina. No spa. E começou a ser perigoso sair do castelo. Havia o risco de as abelhas atacarem quem saísse sem proteção. O rei podia mandar destruir as colmeias. Reconquistar o terreno do castelo ocupado pelas abelhas. Mas aí faltaria o mel para a sua linda e doce filha continuar linda e doce, e contente. Luciclara não podia viver sem mel. O mel não pode existir sem as abelhas. E era impossível convidar abelhas para uma conferência em alto nível. O que fazer?”

A princípio o leitor pode achar que se trata de uma estorinha qualquer, de um pequeno texto bobinho. Mas creio que deva dar uma conferida nas entrelinhas. Lembre-se: trata-se de um texto de Veríssimo…

Creio que o mel sejam as drogas. Assim, Luciclara são os jovens usuários. Já o rei é o pai que não dá a mínima para o filho, que é usuário. Basta que ele esteja “feliz” e não lhe cause incômodo. As abelhas, não precisa eu falar, né? A sociedade não quer os traficantes muito perto. Mas é inevitável, eles estão crescendo em número, e estão por toda a parte…

Trocando por miúdos, se você é usuário de drogas acaba sendo responsável pelo surgimento de grupos armados de traficantes, e assassinos e das armas que correm solta nas mãos deles. Você está alimentando essa rede.

Enfim, foi esta a analogia que fiz.

Comentários

Um Comentário to “As abelhas – parábola?”
  1. Tiago disse:
    Cara, muito bom o texto.

    Eu nem li, mas tu é um cara supimpão e serelepe, então deve ser bom!

    Abraço

    Responder

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